domingo, 29 de janeiro de 2023

O destino dos nossos sonhos


Eu já acreditei que poderíamos melhorar o Brasil, que com democracia e liberdade teríamos mais igualdade e este país se tornaria de primeiro mundo. Também acreditei em sonhos de amor, com aquela energia transformadora que se confunde com a energia da juventude.

As coisas não saíram como eu pensava, para mim e para o mundo, e creio que divido esta sensação com muitos da minha geração. Todos os nossos esforços, baseados nos melhores sentimentos, por vezes parecem desperdiçados. Não sei se isto é amadurecer, um ciclo em que o mundo se mostra autônomo outra vez e foge ao nosso controle, aos nossos projetos, à nossa vontade. Sobretudo de paz, amor e felicidade, individual e coletivamente.


Não sei,  mas a história do que vivemos  me deu este livro: Asas sobre nós. É um poema, do tamanho de um livro, que pode ser lido aos pedaços ou corrido. Um livro de história, mas não a história dos fatos, que estão no Google, mas a história dos nossos desejos, dos nossos sonhos, do nosso esforço de transformação - o  espírito do nosso tempo.

Creio que fala a muita gente, embora hoje eu saiba que as pessoas que pensam, refletem, cultivam a civilização sejam sempre poucas, no conjunto da sociedade. É a verdadeira elite. Talvez Asas sobre nós seja mesmo um livro para poucos. Talvezcru seja um autor para poucos. Porém, reflete o meu desejo de que possa um dia ser para muitos - e teremos, aí, o mundo com que sonhamos, de fato.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A primeira manchete de jornal a gente não esquece

26 de agosto de 1986. A Gazeta Mercantil custava 6 cruzados e 50 centavos e eu escrevia minha primeira manchete no jornal. 

Ganhei de presente  o negativo da impressão, que tenho na parede até hoje. A matéria (“em 60 dias, a indústria produz mais”) era importante porque dependia de um rápido aumento de produção diminuir a pressão inflacionária sobre o congelamento de preços do Plano Cruzado.

Conheci bem Dilson Funaro, ministro da Fazenda, com um espírito missionário que o fazia querer botar ordem até nas entrevistas com jornalistas e transformou o fim de sua vida, tomado pelo câncer, também numa cruzada quixotesca pela salvação do Brasil. Cada vez que olho esta página, ela parece mais apagada - no tempo. 

Vou lendo os nomes e muita gente que está ali já morreu. 

Getúlio Bittencourt, que escrevia sobre a campanha para governador de São Paulo, que tinha Antônio Ermírio (x), Orestes Quércia (x), Paulo Maluf (ainda vivo) e Eduardo Suplicy (também). Marcos Freire, então presidente da Caixa Econômica, morreu num acidente de avião. Celso Pinto, então estrela do jornal, teve de abandonar o jornalismo cedo com problemas de saúde. Paulo Sotero continua firme em Nova York. Tom Camargo,  Londres. Os sonhos de Funaro morreram. Os do Brasil, também.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A imprensa com cheiro de tinta


Era 1982 e o pequeno grupo de calouros da Escola de Comunicação e Artes recebeu a incumbência de produzir um cartaz com impressão a quente. Maravilhado, eu olhava aquelas velhas máquinas, que já pareciam saídas de um museu, mas representavam a imprensa - com seu velho charme e sua história, transformadora do mundo.

Havia lá uma veneranda linotipo, que miraculosamente funcionava, e algumas chapas desfalcadas de muitas letras, aquelas peças de chumbo que se monta uma a uma como grandes carimbos. A frase (Nada a dizer num mundo em que ninguém ouve - E NINGUÉM LÊ) era minha, mas a criação foi coletiva, e saiu este cartaz malfeito e torto, com os tipos que havia.

Meu primeiro trabalho literalmente de imprensa, colocado aqui na #casadoescritor ao lado de outro achado - tipos de madeira, no seu encaixe, que encontrei na feira de antiguidades de Notting Hill. 

Para minha surpresa, há pouco tempo, vi uma linotipo restaurada como nova, assim como outras máquinas antigas perfeitamente funcionais, na charmosa e miraculosa oficina de impressão do @marcocançado, nas Perdizes. Há ainda uma certa aura nas coisas feitas à maneira antiga. Marco fez para mim alguns cartões de visita, e eles me lembram o tempo em que tudo dava mais trabalho, mas saía de um jeito incomparável, porque com um um cuidado que dava o valor do artesão a tudo o que se fazia.

Um simples cartaz era uma forma de arte: um valor cada vez maior nestes tempos de imediatismo virtual, em que tudo tem de surgir num piscar de olhos, ou ao clique de um botão. Essas máquinas me lembram que o tempo nos dá rugas, cria calos, produz marcas. E essa história que a gente carrega, com o jeito de fazer, o dedo sujo de tinta, a nossa impressão, que de nós vai ao papel e do papel sai para o tempo, é que faz tudo valer a pena.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Obra cheia de generosidade

- Adorei o nosso livro. Eu queria te dar um presente.

- Mas você já me pagou - respondi. - Está tudo certo.

- Eu sei. Mesmo assim. Quero lhe dar um presente. Pode escolher o que quiser.

Em 2010, fiz um livro de memórias para o ex-banqueiro, caçador e bon vivant Armando Conde, um dos herdeiros do antigo BCN. De vez em quando faço livros de encomenda, mas sempre escolho aqueles que me parecem livros também comerciais, com capacidade de venda em banca, e também gente com quem tenho afinidade. Passamos às vezes cinco ou seis meses dividindo emoções, histórias e a intimidade de alguém. Por isso, é bom escolher bem o projeto. Um livro só sai bom quando a gente se diverte fazendo.

Nesse caso, a escolha, tanto dele quanto minha, rendeu mais que um livro excelente: virou real amizade. Doutor Armando é admirável. Trata o dinheiro como meio, não como fim; para ele, casado com a fotógrafo Linda Conde, a sabedoria, a educação e a arte são mais importantes. Resultado, é um dos poucos aristocratas brasileiros que usaram a fortuna para viver, e não viveram em função da fortuna. É também um homem carismático, que preza os amigos, a conversa. Elegante e, sobretudo, generoso. Com os amigos, e qualquer um.

Armando me procurou depois de ler a biografia de Rolim Amaro, fundador da TAM, que escrevi e lancei em 2003. Ele é personagem do livro, e eu o tinha entrevistado na época. Foi ele quem, contra o parecer do BCN, autorizou o empréstimo com o qual Rolim comprou seu primeiro avião. Ficara muito impressionado com Rolim, ao conhecê-lo, quando trabalhava como piloto de Pedro Ometto, nas fazendas que abriam na época a floresta amazônica.

Era uma temeridade emprestar dinheiro a um homem que voava na selva, com grande risco se perder ao mesmo tempo o devedor e o objeto da garantia do empréstimo (o avião). Mas Armando achou que aquele homem, que conhecera de pistola em punho, mostrando a foto de outro piloto, com o corpo devorado pelas formigas na mata após se perder num voo trágico, merecia uma oportunidade. E lhe concedeu o empréstimo. Que Rolim, no final, pagou - com juros, correção monetária e eterna gratidão. Aquela chance era tudo o que ele precisava.

Italiano no sangue, Armando admira a grandeza das pessoas e dos gestos. E sempre agiu dessa forma. Durante o período em que fazíamos seu livro, publicado pela editora Record com o título A Riqueza da Vida, colaborou com um de seus antigos amigos e parceiros de aventura: Lan, o grande cartunista, célebre pela generosidade opulenta das mulatas que retratou ao longo da vida de muitos carnavais, e que com a idade se encontrou quase cego e um desamparado. Por meio de Armando conheci Lan e nos tornamos também amigos. Um italiano elegante, mais brasileiro que muitos brasileiros, casado obviamente com uma mulata, adorável pessoa, Lan vivia já quase recluso na sua casa da serra fluminense.

Para Lan, Armando criou um negócio que lhe servisse de aposentadoria. Contratou um escultor para fazer réplicas em bronze de seus desenhos. As réplicas foram vendidas em galerias e o dinheiro passou a ir para Lan. Com isso, Armando fez Lan ganhar dinheiro mesmo sem poder trabalhar.

Eu via o entusiasmo com que Armando  levava o projeto adiante. Me mostrou os primeiros protótipos das esculturas com obras de Lan. Mobilizou os amigos em comum em torno dessa ideia. Então, quando ele insistiu em me dar um presente - qualquer presente -, mesmo sem me dever nada, afinal eu disse a única coisa que queria e achava que ainda podia lhe pedir. Uma das esculturas de Lan.

Mais tarde, fiquei também com alguns desenhos de Lan para a revista Playboy, que dirigi por algum tempo. A escultura gica ao lado da escrivaninha de trabalho, uma mulata que bronze que me recebe alegremente.

Como a maioria das coisas que eu tenho, a escultura de Lan veio, portanto, de um livro. Mais que isso, porém, veio da amizade, da generosidade e do exemplo de um homem que, por gostar, admirar e incentivar a grandeza dos outros, é um admirável exemplo de grandeza, ele próprio. Quem dera houvesse muitos outros como ele.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O cetro e o rei Masai

Na savana africana, era raro deixarmos a van: naquela terra infestada de leopardos, hienas e leões, andar, simplesmente, não era seguro. Daquela vez, porém, tivemos de descer: eu e o grupo de jornalistas em visita à reserva de Masai Mara, no Quênia. Iríamos fazer algo igualmente proibido: entrar em uma aldeia masai. "Vocês podem ir", disse o guia, Peter Nguru. "Mas os motoristas precisam ficar de fora. É proibido entrar nas aldeias; se eles estiverem com vocês, podem ser presos."

Era 1996; eu trabalhava na revista VIP, da Editora Abril, e estava na comitiva com o fotógrafo Sérgio Berezovski, então editor de fotografia do grupo Exame. Entramos na aldeia, para um encontro intermediado por Nguru. Na porta, nos esperava o chefe: um negro de dois metros de altura, esguio, longilíneo, magro como se apoisasse o estreito tronco em dois longos varapaus; suas pernas eram tão finas que os joelhos se sobressaíam, protuberâncias redondas num boneco articulado.




"Welcome", disse ele, num inglês quase incompreensível. Entramos. No centro da aldeia, mulheres e crianças corriam para colocar sobre esteiras o que eles achavam que podiam vender: facas, cestos e outros utensílios. Eu não queria comprar nada, mas andava maravilhado com aquela gente, especialmente os guerreiros, que vira avançar em passos largos pela savana, na chuva, lança em riste, como nos livros de Tarzan que eu devorava na infância.

Circulavam de aldeia em aldeia andando com seus passos largos, ou correndo galhardamente: circular por aquelas terras onde eu, supostamente civilizado, estava impedido de pisar, por razões de segurança extensivas a todos os turistas e estrangeiros, era para eles como para era mim atravessar em São Paulo a avenida São João.

Queria conhecer aquela gente de perto, de dentro. Dizia Nguru que muitos abandonavam as aldeias, por causa da malária, ou outro motivo qualquer: viviam nas periferias das cidades, mergulhavam no alcoolismo, eram párias fora do seu habitat. Por isso o governo queniano ordenava o isolamento, proibia o contato com o branco: o que fazíamos ali era ilegal, impensável, mas isso não parecia impedimento para o jornalismo, habitualmente transgressor.

A aldeia, uma paliçada cicurlar, os protegia literalmente dos leões. As casas, choupanas redondas, com uma armação esquelética de madeira, eram cobertas com estrume de gado. Entrei numa das casas. Tinha não mais que oito metros de diâmetro. Dividida ao meio, a primeira metade era para o gado: os masai viviam do seu sangue, que extraíam do pescoço dos animais, com uma grossa seringa que derramava o conteúdo em cuias de madeira. As vacas eram a sobrevivência e, por isso, eram guardadas dentro de casa, como o bem mais importante da família.

A outra metade da casa de estrume era dividida também ao meio, literalmente em dois quartos. O primeiro, por respeito, estava reservado aos mais velhos, em geral os avós. No quarto restante, habitavam, amontoados, todos os demais membros da família: pai, mãe e filhos. Isso me explicou uma velha senhora, que me recebeu e me convidou a acocorar-se com ela sobre o chão de terra batida.

Quando saí para a luz, lá estava ele, o chefe. Veio na minha direção e me mostrou seu cetro. O símbolo do poder tribal, que ele carregava com leveza, era um tacape de madeira, misto de maça e machado, com um nó pesado na ponta, do qual saía, como uma crista, uma lâmina de madeira lavrada, recortada como serra na ponta. Seu design indicava a função: aplicar um golpe ao mesmo tempo pesado e cortante, certamente fatal.


Indagou quanto eu pagaria para ter, literalmente, seu bem mais importante. Por um instante tive dó, por um chefe se desfazer de algo assim; seria o máximo da miséria, talvez desespero, abrir mão do que ele podia ter de mais valioso. Para mim, um rei entregaria com seu cetro a própria dignidade. Diante da minha hesitação, ele me fez compreender, porém, que não apenas queria o dinheiro. Era uma deferência: ele me oferecia uma honraria, um privilégio.

Assim, por um punhado de dólares, eu me tornei proprietário do cetro que fez de mim um rei masai.

Ao longo da vida, colecionei vários tacapes indígenas, que trouxe do Xingu ou das aldeias da Bahia, perto de Porto Seguro: armas iguais às que os índios usavam para matar seus prisioneiros, amarrados pela cintura com a embira que chamavam de muçurana, na simulação de luta em que ambos, captores e capturados, demonstravam sua bravura. Com aquela armas, os índios iam à guerra; eram a extensão de seu poder, de sua força, de sua alma.

Olhando para esses tacapes, pendurados em toda parte pela Casa da Mata, escrevi A Conquista do Brasil, sobre a guerra com que os colonizadores portugueses sobrepujaram os tupinambás e se assenhorearam da costa brasileira. Porém, na sociedade indígena brasileira, aquela arma não tinha a importãncia daquela que me deu a negra majestade africana, peça mais importante, assim, da minha estranha coleção.

O chefe masai, naquele dia, foi preso; a polícia florestal soube da nossa visita e surgiu, como que do nada, na aldeia. Vi o rei masai ser levado para dentro da caminhonete policial, onde subiu passando uma perna por cima da caçamba, como se não fosse nada. Perguntei a Nguru o que aconteceria com ele. "Vai levar uma bronca, mais nada", disse o guia. No Quênia, como no Brasil, os nativos eram inimputáveis, isto é, não respondiam às leis, senão as suas próprias.

Ele, Nguru, teve que se explicar aos policiais. Disse que nos tinha avisado da proibição, mas nós insistíramos, contra a vontade dele, o que era verdade. A polícia não quis criar problemas com a imprensa internacional. A providência de deixar os motoristas longe da aldeia, à nossa espera, serviu para livrar toda a nossa equipe de apoio da cadeia.

Hoje, em casa, descansando na parede, essas armas primitivas, para mim, são mais que memórias de viagem. Elas me lembram a força do chefe, do poder, do guerreiro: essência, e não paradoxo, da civilização.

Foi com a guerra que o homem civilizado prevaleceu: ela está no nosso espírito, na nossa índole desbravadora. É violência, mas também ignição da identidade humana, razão da nossa resiliente permanência no universo, o que nos dá poder. O homem é um pensador, mas um animal belicoso: contra essa natureza, nenhuma ideia de civilidade é capaz de acabar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Memória reluzente

Durante anos, aquelas copos, taças e cálices de cristal eram o xodó de minha mãe, que só os retirava da prateleira em ocasiões especiais - o que, para ela, eram almoços com convidados, o Natal, ou um jantar que ela preparava com mais carinho.

Eu era criança e me habituei a ver os cristais de mamãe nas melhores mesas, que ela punha com um cuidado que, hoje, para mim chega a ser comovente- porque essa atenção, esse prazer em oferecer o que se tem de melhor, é mais que generosidade, é amor.

Para mim, esses cristais são sinônimo de festa, de alegria, de tardes felizes, em que a gente podia correr pela casa, brincando, enquanto os adultos festejavam. E gente falando, comendo e tilintando copos taças e talheres para mim é como música, música de felicidade.



Eles me lembram a comida italiana de mamãe, acompanhada de Vivaldi, ou Tchaikovsy, e os vinhos, que naquela época, de importações fechadas, eram coisa rara. Meu pai enchia as taças de mamãe com garrafas de Spaggiari, um tinto de São Roque, cidade da sua infância - levemente frisante, que comprávamos em passeios por lá. Ou vinho verde Calamari, com suas garrafas elípticas, que ele me deixava provar, às vezes, um pouquinho.

Desde que minha mãe morreu, há oito anos, tornei-me o guardião do que restou de sua coleção, um pouco desfalcada pelos anos e alguns acidentes, em mudanças e no seu bom uso. Estão na cristaleira da sala, como relíquia desses tempos, parte de um livro de memórias não só minhas como da família, do nosso país, de uma geração que eu ainda gostaria de contar.

No sol vespertino, dentro da cristaleira de vidro, os cristais de mamãe refletem a luz, espalham essa lembrança de tempos felizes, me enchem de alegria pueril, mesmo quando estou sozinho em casa, e não me deixam estar solitário.

Às vezes eu tomo uma das taças menores e sirvo para mim mesmo um pouco de porto, para assistir o fim de tarde. Eu me sinto magicamente adulto, por poder tomar a bebida de meus pais, e ao mesmo tempo criança, por ser ainda o menino que os via ao redor da mesa, com aquelas mesmas taças nas mãos.

E espero os momentos especiais, a hora de reunir a família, como antes, tanto quanto possível: os que vieram depois, os que nunca saíram e os que estão presentes apenas no coração. #nacasadoescritorwww.nacasadoescritor.blogspot.com.



domingo, 18 de dezembro de 2016

Vive le bricolage

Meu ex-editor, Pedro Paulo Sena Madureira, primeiro a publicar romance meu, gostava de contar certa visita que fez a Milan Kundera, em sua casa, na champanhe francesa. Então na Nova Fronteira, Madureira perguntou dos livros. Kundera respondeu que o médico lhe recomendara algum hobby para melhorar a depressão. Apontou as prateleiras da cozinha, que ele mesmo tinha feito, e disse: esse agora é meu negócio, "Le bricolage"! Como o Milan Kundera, meu negócio para acalmar os nervos agora é a #bricolagem. Aqui minha mais nova obra: mesinha de canto com bolacha de araucária. Vai para o acervo aqui de casa, ao lado da cristaleira com os copos de minha mãe.

Antes de virar Kundera, já transformei o paiolzinho aqui de casa em marcenaria. Pour les écrivains... Vive le bricolage!#nacasadoescritor

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A mensagem da Rainha de Copas

Esperamos o carro na saída da balada, vem o mendigo, incomoda as moças sentadas no banco ao lado, na calçada. Dou a ele uns reais para tirar a atenção delas, sento novamente, estico as pernas e ele vem na minha direção.

"Você é diferente, especial", diz. "Sabe ver o outros, terá um caminho de sucesso pela frente."

Enfia o dinheiro no bolso, anunciando em voz alta o seu nome, e vai embora, desaparecendo na noite, da mesma forma que surgiu. 

Ela, que pouco antes soprara na saída do casarão ao ouvido da Rainha de Copas, diz: "Você precisa parar com esses livros de história, tem de voltar à ficção, ser de novo dono do que escreve, dos seus personagens". 

Respiro fundo na noite em que dancei como um selvagem.

Objetos indispensáveis para escrever

Instrumentos disponíveis na mesa de trabalho para qualquer eventualidade: cinzeiro de jade, que meu pai trouxe da Guatemala quando eu era criança e ficava no seu escritório enfumaçado de cachimbo; um soco inglês inca, que comprei na rua, em #Cuzco, aos 16 anos; a tartaruga de jade e madrepérola, que trouxe do #México, em 2006; um bichinho da sorte, que comprei na estrada de Nairobi para a reserva Masai Mara. Grampeador, cortador de papel, caixa de carimbo para lacrar envelopes com cera. Por fim, latinha de Café Crème. Como viver sem isso?#nacasadoescritor#indispensável #thalesguaracy #vemlivronovoaí

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Hemingway e um bangalô na mata


Quando vi a casa pela primeira vez, pensei: é aqui que eu vou ficar.

Nem pensava em comprar uma casa. Ou melhor, queria algum lugar que tivesse alguma coisa que eu ainda não sabia bem o que era. Uma casa no meio da mata. Isolamento. Mas algo acolhedor. Uma casa para um escritor.

Casas são muito importantes para quem escreve, pois escritores passam muito tempo dentro delas. Precisam contar histórias, porque é isso o que fazemos. Ali nos cercamos das nossas coisas, das nossas histórias. Um ambiente favorável a sermos nós mesmos. À criação.

Hemingway adorava casas. Visitei a de Key West. Por pouco não vi a de Cuba (estava fechada). Para ter uma casa, Hemingway gastava o dinheiro que não tinha e realizava projetos mirabolantes. Jack London comprou uma fazenda perto de São Francisco, que dizia ser uma futura fazenda modelo, mais um de seus projetos brancaleones. A casa pegou fogo pouco antes da inauguração.

A Casa da Mata, como eu a chamo, foi construída há cerca de doze anos pelo ex-secretário da Fazenda de São Paulo, Yoshiaki Nakano, professor de economia da USP. Ele e a mulher começaram ao redor dela o jardim japonês conservado até hoje. Um homem de bom gosto, o jornalista Antônio Telles, diretor de jornalismo da TV Bandeirantes e apresentador do Canal Livre, reformou-a com grandes vidros para a luz e a paisagem e lixou-a inteira para substituir o verniz grosso e brilhante com um fosco, mais elegante.

Minha contribuição foi fazer tudo funcionar, incluindo a piscina, pouco utilizada a quase 1700 metros de altitude. E coloquei ali o que faltava: a literatura. No final, balançando na rede da varanda, entendi porque gostara daquela casa desde o início. A construção, feita pela hoje falida Casema, especializada em casas pré-fabricadas, para as quais utilizava um tipo de madeira que hoje já não existe disponível, é na realidade um bangalô ao estilo inglês. Como muitos que vi na África, onde os ingleses colonizadores procuravam manter viva sua civilização num ambiente agreste. E como a de Tarzan, meu ídolo de criança na literatura, que gostava de viver seminu na jângal, mas tinha uma fazenda onde morava com Jane, num bangalô que na minha imaginação é exatamente como este.

Ali terminei A Conquista do Brasil, livro de história hoje nas livrarias, editado pela Planeta. Ali escrevi meu próximo romance, que deve sair em 2016 pela mesma editora. E ali comecei e terminei um livro muito pessoal.

Como em tudo o que fazemos, até mesmo a casa é uma escolha literária. Não deve ter sido fácil morar em Cuba ou Key West nos tempos de Hemingway. A Casa da Mata fica longe e não tem internet. É uma ilha na modernidade. Mas tudo bem. Escrever só vale a pena quando vivemos pelo que escrevemos, seguimos os sonhos e não há diferença entre o que somos e como queríamos ser.

Um pano, um romance e as mulheres

Eu tinha dezesseis anos de idade quando viajei com meu pai a Macchu Picchu, no Peru - por terra. Fizemos o célebre caminho que incluía as mais de 30 torturantes horas no Trem da Morte, partindo de Quijarro até Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Fomos e voltamos pelo mesmo caminho, de trem, avião, caminhão, ônibus, a pé - incluindo andar por um bom pedaço do deserto no altiplano. A história renderia um romance, Campo de Estrelas, publicado em 2005 pela editora Globo e que se pode encontrar hoje em e-book na saraiva, Amazon e outras lojas virtuais.

Na volta, depois de uma noite demoníaca dentro de um ônibus superlotado, em que ficamos presos na última fileira, molhados a uma temperatura bem abaixo de zero, paramos em Puno, no Peru. Lá comemos o ceviche original, com o Peixe-Rei, exclusividade do Titicaca, cozinhado no limão com cebola e pimenta - uma delícia para o paladar e uma prova de fogo para o sistema digestivo. Na frente do boteco onde fizemos o repasto, uma feira das muitas que havia em toda a Bolívia e o Peru, com suas cholas sentadas vendendo artesanato. Ali, me encantei pelas cores de um auayo - o pano com que as nativas carregam as crianças nas costas onde quer que vão. Um costume antigo, como vimos pelos auayos nas paredes do Museu de Arqueologia em La Paz.



Comprei. Para mim, o auayo não somente era uma peça de vestuário ou utilitária, como também o símbolo daquelas mulheres, que antes de qualquer coisa eram mães. Levavam suas crianças como cangurus, admiravelmente sem se queixar, às vezes em longas viagens (os bolivianos parecem nômades, estão sempre em movimento), nas condições mais adversas.

Guardei aquilo como uma lembrança de viagem. Mais tarde, dei o auayo de presente a uma namorada, que para mim era também uma mulher e mãe admirável. Quando nos separamos, ela achou por bem me devolver o presente, dizendo que eu deveria dá-lo a uma mulher definitiva, a quem realmente caberia aquela peça.

Fiquei novamente com o auayo, mas não poderia dar novamente a alguém um presente que já havia sido de outra pessoa. Ficou comigo e andou de casa em casa até finalmente achar o seu lugar, mais de trinta anos depois, no meu quarto na Casa da Mata, onde se encontra até hoje. É uma boa lembrança, ligada tanto ao romance que escrevi como a um romance na vida real e, sobretudo, à imagem que tenho das mulheres.

Funciona como um retrato da bravura, do amor e da força feminina, que permanecem para mim como ideal admirável.

Máquinas do tempo

Ao longo dos anos, fui guardando as máquinas onde escrevi, vitimadas pela rápida obsolescência nesta era de extraordinárias mudanças para quem opera com as letras. Tenho dificuldade de me desfazer das minhas companheiras de trabalho; cada uma delas lembra um, ou mais, livros que escrevi. São as testemunhas mudas do meu esforço, instrumento único desse solilóquio obsessivo da escrita. Foram ficando pelos cantos, enfiadas em armários, e aos poucos, como para mostrar a mim mesmo de como vim de longe, como foi demorada, trabalhosa e talvez inglória a jornada até aqui, foi surgindo a vontade de reuni-las num mesmo lugar, onde eu pudesse olhar para elas, como os personagens dos meus livros, e dizer: vocês merecem uma boa aposentadoria, mas ainda gosto da sua companhia, podem ficar por aqui.

Na casa nova, achei o lugar e a ocasião: em uma estante de quina entre a saleta de leitura e a de jantar, fui colocando minhas velhas companheiras, perfiladas como num batalhão: soldados que deram baixa depois da guerra e se reencontram para relembrar feitos que, não fosse pelo que escrevemos juntos, só teriam significado para eles e seu comandante.



Sem dúvida, a máquina mais importante dessa pequena coleação é a velha Olivetti-Underwood Studio 44 verde, modelo exato da máquina de meu pai, Alipio. Ela é, na verdade, um sonho de criança, desde os tempos em que eu via meu pai escrevendo; passava pela porta fechada do pequeno escritório onde ele, entre volutas de fumaça de cachimbo, escrevia suas reportagens e editoriais para revistas como Médico Moderno e Contrução Hoje. Entrar lá dentro era proibido; eu só podia fazê-lo por motivo de força maior, o que queria dizer uma ordem de minha mãe ("chame seu pai para o jantar").

Antes, eu parava na porta, para ouvir o claqueteclaque tão familiar, que para mim é como uma música de infância. Entrar no escritório de meu pai quando ele escrevia era como penetrar em território sagrado, como um cemitério indígena ou o solo da Terra Santa. Pelo menos, assim eu pensava, já que ele abominava ser perturbado, por razões intrínsecas ao ofício de escrever, que eu mesmo só entenderia muito mais tarde. O mistério daquele trabalho e esse pequeno tabu fizeram com que esse momento para mim sempre tenha sido cercado de respeito; e me deixou a convicção de que quem escreve tem direito ao silêncio e à solidão.

Meu pai passou anos a trabalhar com aquela Studio, uma das melhores máquinas já feitas para escrever; para deslizar de volta à margem esquerda, o carro macio demandava apenas a ponta do dedo. Quando meu pai não estava, eu roubava algumas folhas de papel para experimentar; escrevia com quatro dedos, como faço até hoje, com a desculpa de que o que fazemos é escrever, e o importante são as ideias, não a datilografia.

Durante anos a fio, sonhei em estar ali, naquele lugar: diante da máquina verde onde os sonhos ainda estavam por ser feitos. Aos dezoito anos, quando tive meu primeiro carro, viajava até Suzano, em geral aos sábados, para visitar meu avô José: adorava ouvi-lo cantar suas antigas modas de viola e, especialmente, contar as histórias com que preenchia o tempo entre uma canção e outra. Ele já tinha passado dos 90 anos, estava encurvado, reclamava de varizes, e da surdez; para me comunicar com ele, eu escrevia frases num velho caderno escolar, sobre a mesa da cozinha, onde fazíamos nossas tertúlias: na verdade um interminável monólogo que comecei a gravar com a ideia de transformar aquelas histórias no meu primeiro romance.



Fiz isso por cerca de seis meses; tirava as fitas K-7 direto na máquina verde de meu paí. Eu ainda não escrevia nada, apenas transcrevia, com o máximo possível de fidelidade, as frases enfeitadas do português italianado e brejeiro de meu avô. As folhas, algumas de seda, outras de sulfite, foram se acumulando até formar um respeitável calhamaço ao qual eu pretendia dar algum sentido. E quem sabe ver publicado como meu primeiro livro.


As folhas foram sendo rabiscadas e passadas a limpo na Olivetti, mas aquilo não formava ainda um romance; era um proto-livro, o rascunho do que viria a ser o que eu primeiro pensaria intitular como Iusfen e, mais tarde, foi Filhos da Terra. Levei tempo para entender que a degravação das histórias de meu avô não dariam um romance e que eu precisaria absorver aquela matéria prima e recriá-la, para surgir um livro de verdade.

Meu avô tinha razão: quando eu lhe dizia que tinha vontade de usar suas histórias para escrever um livro, ele apenas ria e falava: "isso está em você". Filhos da Terra, de fato, não é um livro de meu avô, ou sobre meu avô, mas de como eu o via e, ao final, acabaria sendo um livro sobre mim mesmo.

Filhos da Terra levou sete anos para ser concluído; quando penso no enorme esforço que me custou, parece que uma parte da minha vida foi engolida no tempo. Trabalhei nesse romance como se fosse a única e última coisa que faria na vida; foi meu primeiro romance para adultos e, acredito, ainda o melhor.

Quando saí da casa de meu pai, deixei de escrever na mesma máquina que ele; o romance foi concluído num laptop Toshiba 1000, um precursor dos notebooks modernos; mas as folhas onde o livro nasceram continuaram numa pasta que me servia de referência, onde estava a linguagem que eu queria conservar, o frescor de sua origem. Mais tarde, comprei a máquina que agora está na Casa da mata. Era já uma peça de museu, reformada numa oficina de máquinas de escrever, no centro de São Paulo, próxima do Pátio do Colégio. De alguma forma, necessitava daquela companhia, que me lembra, até hoje, como comecei e por que, mais do que gostar, preciso escrever.

Quando as coisas se juntam



Sou um colecionador de memórias profissional - e, da mesma forma como acumulo a memória factual e afetiva para escrever, vou juntando móveis, papéis, obras de arte e pequenas tralhas das quais tenho dificuldade de me separar. Penso que os objetos que carregamos junto conosco contam um pouco a história da gente e falam muito sobre quem somos - ou o que fizemos de nós mesmos. No meu caso, aparecem aqui e ali nos meus livros e são parte do que escrevo.

Na minha casa em São Paulo, que deixei há quatro anos, esse espaço estava circunscrito ao escritório, onde eu trabalhava diariamente, cercado de coisas cuja maioria só eu sei para que servem ou de onde vieram - pinturas, desenhos, lembranças de viagem, objetos curiosos. Para quem olha de fora, aquilo é apenas uma bagunça, ou o sinal visível do caos interior. Para quem examina tudo mais de perto, ou vê o conjunto, e conhece as histórias de cada objeto e sua importância, surge um novo sentido, que é inerente à própria vida e ao trabalho criativos.

Comecei a revisitar as minhas coisas, e a mim mesmo, recentemente. Para tentar entender melhor o porque de tudo, ou de cada coisa, como numa visita ao museu de mim mesmo.



Por certo tempo, minhas coisas andaram espalhadas, por conta da bússola errática que às vezes toma controle da vida. Assim como seu dono, parecia que elas andavam à procura de um lugar - um lugar onde afinal tudo se encaixasse, esperando que fosse para sempre. Algo difícil, como haver harmonia na tempestade, unidade na diversidade, sentido na loucura. Aos poucos, porém, vida e arte foram se juntando no mesmo lugar.

Até por estar sem endereço fixo em São Paulo, levei tudo para uma nova casa no meio da mata, onde passei a escrever meus livros. No antigo sítio, jamais consegui trabalhar. Havia sempre algo a fazer, a cerca para cuidar, o cão como companhia do passeio, a tarde para namorar. Porém, aos poucos foi tomando força a ideia de reunir tudo lá - o trabalho e o ambiente que o cerca.

Na Casa da Mata, além do meu último níquel, gasto sem nenhuma cerimônia em um cheque rabiscado no balcão de fórmica do cartório, comecei a fazer meu novo futuro levando meus cacos do passado, como o rearranjo de um antigo mosaico, em busca de sua forma definitiva. O que só foi possível depois de encontrar com um amor extraordinário e benevolente que, sem ciúme do que já passou, e capaz de me trazer de volta a energia incomparável da esperança, permitiu que passado, presente e futuro se juntassem de uma forma harmoniosa.

Para minha surpresa, ou alívio, velho e novo foram se encaixando em seus lugares, como se tivessem esperado sempre para estar ali. Passeio agora pela casa e tudo ali faz mais sentido: começo, meio, fim. Cada peça conta uma história, e cada história é uma parte do quebra-cabeça: elementos de sonho, de realização, de aventura, de amor.

Vejo uma linha do tempo e vêm recordações que não são passado, porque atuam, ou mesmo determinam minhas mudanças e a razão de estar aqui. Sentimentos antigos continuam presentes: tudo está dentro de mim. E tenho o impulso de registrar um pouco o que há por trás de cada coisa: a vida que pulsa em cada objeto aparentemente inanimado, o que cada coisa fala de mim, ou sobre mim, e para mim. Eu me redescubro, preparado para mais.

Somos a somatória de tudo: viagens, momentos, lembranças, ideias, ideais, encontros. Recolhemos pela vida aquilo que se amolda a nós mesmos: e aqui estamos. Nossa casa é o espaço onde essa mágica se realiza, ainda mais no caso de gente que, como eu, trabalha em casa e cria um mundo ao próprio redor.

Aqui quero trabalhar, juntar crianças, ouvir o som dos pássaros. Há lá fora um bando de javalis baderneiros que se atocaiaram na montanha e escavam o baixio com os seus caninos; lá embaixo, onde havia o lago onde uma vez uma mulher já morreu afogada, está agora o poço de pedra onde a água mina, cristalina; a rede está à espera, depois do almoço.

E a mesa de trabalho está ali, ao lado da lareira vermelha; são dela as primeiras horas do dia, sempre, e alguns minutos, antes de dormir.

O Aldemir que eu pintei

Por certo tempo, depois de um emprego onde eu sem querer acabei ganhando algum dinheiro, fui morar numa casa com piscina e palmeiras imperiais no Morumbi. Tinha uma namorada, que não bastando querer trazer seus trapinhos para casa, resolveu decorá-la com a grandiosidade merecida. Deixei.

Entre os pertences que ela trouxe, estava um belo e grande quadro, um vaso de flores coloridas, assinado por Aldemir Martins, uma herança de família. A obra ganhou destaque na sala, sobre um aparador de vidro e dois grande cachepôs de vime, de onde saíam plantas ornamentais de verdade.

Ficou bonito: a sala tinha uma lareira, um degrau para a sala de jantar, de onde se via um jardim de inverno e, do outro lado, uma parede envidraçada que dava para a psicina, com uma piscina iluminada à noite de azul.

Parecia o idílio perfeito, mas comecei a observar com o tempo que algumas coisas andavam sumindo misteriosamente. E, um belo dia, entrei e,m casa e não vi o Aldemir. Foi então que fiquei sabendo que minha namorada se metera em dívidas e ia vendendo as coisas pouco a pouco.

Além de chateado com a maneira como descobri aquilo, lamentei pela falta do quadro, que para mim já fazia parte do ambiente. Entao comprei uma tela, do mesmo tamanho, e procurei pintar um quadro igual - o mais igual que eu poderia tentar de um Aldemir. Emoldurei, e lá ele ficou. Não tinha grife, mas fazia a sua função. Uma solução caseira, com a qual fiquei feliz.

Bem, não é preciso explicar muito por que o namoro não durou. Quando a namorada enfim se despediu, passei a olhar aquele quadro com certo aborrecimento, uma lembrança incômoda de certas chateações. Levei-o eimeiro para o quarto de hóspedes. Depois, quando vendi a casa, para a minha casa de campo, que na época se encontrava no bairro do Serrano, antes de vir para o lugar onde esta hoje.

Comecei a achar defeito. Achava que as flores tinham as cores muito lisas, n]ao tinha o mesmo refinamento de Aldemir. Eu conhecia o original, sabia a diferença, então me incomodava.

Então resolvi transformar o quadro. Tomei as reproduções de quadros de mulheres de um calendário de Klint, piquei-as em centenas de pedaços, o que teve um certo gosto de vingança. E, no lugar das flores, colei minhas mulheres partidas. Minhas flores, então, se tornaram um mosaico de rostos rasgados, mulheres de antigamente, com o refinamento de Klint, estilhaçadas pelas minhas mãos turbulentas.

O quadro original foi pintado em 2003, mas não tinha data. Coloquei a verdadeira data do seu nascimento, 2009.

Depois que coloquei todos aqueles retalhos no lugar, passei um selante sobre tudo. Virei o quadro de ponta-cabeça para secar, e pensei: aí está um verdadeiro quadro meu.









segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O quadro da sala e a história de um romance


Em 1997, eu morava num apartamento de cobertura no Morumbi, em São Paulo, com uma bela vista para as casas do Jardim Guedala e, mais ao longe, a cordilheira de cimento da metrópole. Tinha um bom emprego, uma bela e jovem mulher, com quem tinha passado seis anos de um casamento convencional. E estava profundamente infeliz.

Não conseguia terminar o primeiro romance que escrevia, e que viria a se chamar Filhos da terra; não entendia o que havia de errado com o livro, ou comigo, e resolvi mudar tudo: emprego, casa, estado civil. Tudo.

Durante a primeira semana, minha ex-mulher foi buscar consolo com a família no Rio Grande do Sul;fiquei esse tempo sozinho na casa que ia abandonar. Como uma terapia, comprei telas e tinta. Gostava de desenhar, mas nunca havia pintado nada. O primeiro quadro foi um monstro azul que se parecia, muito, com O Grito, de Munch. O segundo foi a paisagem que eu avistava do andar superior, ao lado da piscina.

De tudo o que tinha em casa, além de uma mala de roupas, a única coisa que levei embora foi este quadro, que hoje está na Casa do Escritor, em Gonçalves. Lembrança não da casa, nem da paisagem, mas da força misteriosa e imperiosa que me fez jogar fora aquele cenário e a vida inteira para começar outra.

Cruzei com minha ex-mulher na garagem; ela chegava, eu ia embora.

- Onde você vai? - ela perguntou.

- Não sei ainda. Saí também do emprego, também não sei como ganharei a vida.

Ela olhou então o quadro que eu levava debaixo do braço. E disse:

- Você nunca vai passar fome.

Foi a última vez que a encontrei, antes da asisnatura do divórcio; depois disso, nunca mais. Comprei uma casa nas montanhas, onde estou ainda hoje. Terminei o livro. Encontrei, nas montanhas, a mulher da minha vida. E, desde então, já escrevi uma série de romances e livros de não ficção. Levo a vida que imaginei. E que começou a ser construída ali.

Escrever não é escrever, em si: como disse Gabriel García Marques, é viver para escrever. É, sinteticamente, viver. Era isto o que me faltava: levar a vida como eu a desejava. Ser feliz fazendo o que gosto, estando onde gosto, sem desistir dos sonhos. Todas as vezes em que contrariei a mim mesmo, essa vontade foi mais forte e me levou de volta ao trilho.

As montanhas fazem a gente sentir o prazer viciante da liberdade. Hoje olho o quadro na parede e penso que o cenário era bonito, mas não é como as montanhas: a cidade nos dá uma falsa liberdade. Somos prisioneiros de um sistema. A vida não está dentro de um escritório, ou numa academia de ginástica. Ela está lá fora, onde se sente o cheiro da terra, do orvalho, o calor do sol, o gosto do sal marinho.

Esse é o quadro. Viver, para escrever, e escrever para viver. Ou pintar.