segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Memória reluzente

Durante anos, aquelas copos, taças e cálices de cristal eram o xodó de minha mãe, que só os retirava da prateleira em ocasiões especiais - o que, para ela, eram almoços com convidados, o Natal, ou um jantar que ela preparava com mais carinho.

Eu era criança e me habituei a ver os cristais de mamãe nas melhores mesas, que ela punha com um cuidado que, hoje, para mim chega a ser comovente- porque essa atenção, esse prazer em oferecer o que se tem de melhor, é mais que generosidade, é amor.

Para mim, esses cristais são sinônimo de festa, de alegria, de tardes felizes, em que a gente podia correr pela casa, brincando, enquanto os adultos festejavam. E gente falando, comendo e tilintando copos taças e talheres para mim é como música, música de felicidade.



Eles me lembram a comida italiana de mamãe, acompanhada de Vivaldi, ou Tchaikovsy, e os vinhos, que naquela época, de importações fechadas, eram coisa rara. Meu pai enchia as taças de mamãe com garrafas de Spaggiari, um tinto de São Roque, cidade da sua infância - levemente frisante, que comprávamos em passeios por lá. Ou vinho verde Calamari, com suas garrafas elípticas, que ele me deixava provar, às vezes, um pouquinho.

Desde que minha mãe morreu, há oito anos, tornei-me o guardião do que restou de sua coleção, um pouco desfalcada pelos anos e alguns acidentes, em mudanças e no seu bom uso. Estão na cristaleira da sala, como relíquia desses tempos, parte de um livro de memórias não só minhas como da família, do nosso país, de uma geração que eu ainda gostaria de contar.

No sol vespertino, dentro da cristaleira de vidro, os cristais de mamãe refletem a luz, espalham essa lembrança de tempos felizes, me enchem de alegria pueril, mesmo quando estou sozinho em casa, e não me deixam estar solitário.

Às vezes eu tomo uma das taças menores e sirvo para mim mesmo um pouco de porto, para assistir o fim de tarde. Eu me sinto magicamente adulto, por poder tomar a bebida de meus pais, e ao mesmo tempo criança, por ser ainda o menino que os via ao redor da mesa, com aquelas mesmas taças nas mãos.

E espero os momentos especiais, a hora de reunir a família, como antes, tanto quanto possível: os que vieram depois, os que nunca saíram e os que estão presentes apenas no coração. #nacasadoescritorwww.nacasadoescritor.blogspot.com.



domingo, 18 de dezembro de 2016

Vive le bricolage

Meu ex-editor, Pedro Paulo Sena Madureira, primeiro a publicar romance meu, gostava de contar certa visita que fez a Milan Kundera, em sua casa, na champanhe francesa. Então na Nova Fronteira, Madureira perguntou dos livros. Kundera respondeu que o médico lhe recomendara algum hobby para melhorar a depressão. Apontou as prateleiras da cozinha, que ele mesmo tinha feito, e disse: esse agora é meu negócio, "Le bricolage"! Como o Milan Kundera, meu negócio para acalmar os nervos agora é a #bricolagem. Aqui minha mais nova obra: mesinha de canto com bolacha de araucária. Vai para o acervo aqui de casa, ao lado da cristaleira com os copos de minha mãe.

Antes de virar Kundera, já transformei o paiolzinho aqui de casa em marcenaria. Pour les écrivains... Vive le bricolage!#nacasadoescritor

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A mão pelo caminho

A musa @clecileao me leva à #casadasrosas. Exposição #vidaobra de #Haroldodecampos. Então vai aqui, pra ela:
Entre todas as incertezas
De andar um sábado sem rumo
Está a beleza de encontrar
A mão pelo caminho
Andar sem rumo em asperezas
Mas não andar sozinho. (TG)

A mensagem da Rainha de Copas

Esperamos o carro na saída da balada, vem o mendigo, incomoda as moças sentadas na calçada, no banco ao lado. Dou a ele uns reais para tirar a atenção delas, sento novamente ao lado de @clecileao, estico as pernas e ele vem na minha direção. "Você é diferente, especial", diz. "Sabe ver o outros, terá um caminho de sucesso pela frente." Enfia o dinheiro no bolso, anunciando em voz alta o seu nome, e vai embora, desaparecendo na noite, da mesma forma que surgiu. Cleci, que pouco antes soprara na saída do casarão ao ouvido da Rainha de Copas, diz: "Você precisa parar com esses livros de história, tem de voltar à ficção, ser de novo dono do que escreve, dos seus personagens". Respiro fundo na noite em que dancei como um selvagem.
@nacasadoescritor #literatura #livraria #romance #thalesguaracy

Objetos indispensáveis para escrever

Instrumentos disponíveis na mesa de trabalho para qualquer eventualidade: cinzeiro de jade, que meu pai trouxe da Guatemala quando eu era criança e ficava no seu escritório enfumaçado de cachimbo; um soco inglês inca, que comprei na rua, em #Cuzco, aos 16 anos; a tartaruga de jade e madrepérola, que trouxe do #México, em 2006; um bichinho da sorte, que comprei na estrada de Nairobi para a reserva Masai Mara. Grampeador, cortador de papel, caixa de carimbo para lacrar envelopes com cera. Por fim, latinha de Café Crème. Como viver sem isso?#nacasadoescritor#indispensável #thalesguaracy #vemlivronovoaí

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Hemingway e um bangalô na mata


Quando vi a casa pela primeira vez, pensei: é aqui que eu vou ficar.

Nem pensava em comprar uma casa. Ou melhor, queria algum lugar que tivesse alguma coisa que eu ainda não sabia bem o que era. Uma casa no meio da mata. Isolamento. Mas algo acolhedor. Uma casa para um escritor.

Casas são muito importantes para quem escreve, pois escritores passam muito tempo dentro delas. Precisam contar histórias, porque é isso o que fazemos. Ali nos cercamos das nossas coisas, das nossas histórias. Um ambiente favorável a sermos nós mesmos. À criação.

Hemingway adorava casas. Visitei a de Key West. Por pouco não vi a de Cuba (estava fechada). Para ter uma casa, Hemingway gastava o dinheiro que não tinha e realizava projetos mirabolantes. Jack London comprou uma fazenda perto de São Francisco, que dizia ser uma futura fazenda modelo, mais um de seus projetos brancaleones. A casa pegou fogo pouco antes da inauguração.

A Casa da Mata, como eu a chamo, foi construída há cerca de doze anos pelo ex-secretário da Fazenda de São Paulo, Yoshiaki Nakano, professor de economia da USP. Ele e a mulher começaram ao redor dela o jardim japonês conservado até hoje. Um homem de bom gosto, o jornalista Antônio Telles, diretor de jornalismo da TV Bandeirantes e apresentador do Canal Livre, reformou-a com grandes vidros para a luz e a paisagem e lixou-a inteira para substituir o verniz grosso e brilhante com um fosco, mais elegante.

Minha contribuição foi fazer tudo funcionar, incluindo a piscina, pouco utilizada a quase 1700 metros de altitude. E coloquei ali o que faltava: a literatura. No final, balançando na rede da varanda, entendi porque gostara daquela casa desde o início. A construção, feita pela hoje falida Casema, especializada em casas pré-fabricadas, para as quais utilizava um tipo de madeira que hoje já não existe disponível, é na realidade um bangalô ao estilo inglês. Como muitos que vi na África, onde os ingleses colonizadores procuravam manter viva sua civilização num ambiente agreste. E como a de Tarzan, meu ídolo de criança na literatura, que gostava de viver seminu na jângal, mas tinha uma fazenda onde morava com Jane, num bangalô que na minha imaginação é exatamente como este.

Ali terminei A Conquista do Brasil, livro de história hoje nas livrarias, editado pela Planeta. Ali escrevi meu próximo romance, que deve sair em 2016 pela mesma editora. E ali comecei e terminei um livro muito pessoal.

Como em tudo o que fazemos, até mesmo a casa é uma escolha literária. Não deve ter sido fácil morar em Cuba ou Key West nos tempos de Hemingway. A Casa da Mata fica longe e não tem internet. É uma ilha na modernidade. Mas tudo bem. Escrever só vale a pena quando vivemos pelo que escrevemos, seguimos os sonhos e não há diferença entre o que somos e como queríamos ser.

Um pano, um romance e as mulheres

Eu tinha dezesseis anos de idade quando viajei com meu pai a Macchu Picchu, no Peru - por terra. Fizemos o célebre caminho que incluía as mais de 30 torturantes horas no Trem da Morte, partindo de Quijarro até Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Fomos e voltamos pelo mesmo caminho, de trem, avião, caminhão, ônibus, a pé - incluindo andar por um bom pedaço do deserto no altiplano. A história renderia um romance, Campo de Estrelas, publicado em 2005 pela editora Globo e que se pode encontrar hoje em e-book na saraiva, Amazon e outras lojas virtuais.

Na volta, depois de uma noite demoníaca dentro de um ônibus superlotado, em que ficamos presos na última fileira, molhados a uma temperatura bem abaixo de zero, paramos em Puno, no Peru. Lá comemos o ceviche original, com o Peixe-Rei, exclusividade do Titicaca, cozinhado no limão com cebola e pimenta - uma delícia para o paladar e uma prova de fogo para o sistema digestivo. Na frente do boteco onde fizemos o repasto, uma feira das muitas que havia em toda a Bolívia e o Peru, com suas cholas sentadas vendendo artesanato. Ali, me encantei pelas cores de um auayo - o pano com que as nativas carregam as crianças nas costas onde quer que vão. Um costume antigo, como vimos pelos auayos nas paredes do Museu de Arqueologia em La Paz.



Comprei. Para mim, o auayo não somente era uma peça de vestuário ou utilitária, como também o símbolo daquelas mulheres, que antes de qualquer coisa eram mães. Levavam suas crianças como cangurus, admiravelmente sem se queixar, às vezes em longas viagens (os bolivianos parecem nômades, estão sempre em movimento), nas condições mais adversas.

Guardei aquilo como uma lembrança de viagem. Mais tarde, dei o auayo de presente a uma namorada, que para mim era também uma mulher e mãe admirável. Quando nos separamos, ela achou por bem me devolver o presente, dizendo que eu deveria dá-lo a uma mulher definitiva, a quem realmente caberia aquela peça.

Fiquei novamente com o auayo, mas não poderia dar novamente a alguém um presente que já havia sido de outra pessoa. Ficou comigo e andou de casa em casa até finalmente achar o seu lugar, mais de trinta anos depois, no meu quarto na Casa da Mata, onde se encontra até hoje. É uma boa lembrança, ligada tanto ao romance que escrevi como a um romance na vida real e, sobretudo, à imagem que tenho das mulheres.

Funciona como um retrato da bravura, do amor e da força feminina, que permanecem para mim como ideal admirável.

Máquinas do tempo

Ao longo dos anos, fui guardando as máquinas onde escrevi, vitimadas pela rápida obsolescência nesta era de extraordinárias mudanças para quem opera com as letras. Tenho dificuldade de me desfazer das minhas companheiras de trabalho; cada uma delas lembra um, ou mais, livros que escrevi. São as testemunhas mudas do meu esforço, instrumento único desse solilóquio obsessivo da escrita. Foram ficando pelos cantos, enfiadas em armários, e aos poucos, como para mostrar a mim mesmo de como vim de longe, como foi demorada, trabalhosa e talvez inglória a jornada até aqui, foi surgindo a vontade de reuni-las num mesmo lugar, onde eu pudesse olhar para elas, como os personagens dos meus livros, e dizer: vocês merecem uma boa aposentadoria, mas ainda gosto da sua companhia, podem ficar por aqui.

Na casa nova, achei o lugar e a ocasião: em uma estante de quina entre a saleta de leitura e a de jantar, fui colocando minhas velhas companheiras, perfiladas como num batalhão: soldados que deram baixa depois da guerra e se reencontram para relembrar feitos que, não fosse pelo que escrevemos juntos, só teriam significado para eles e seu comandante.



Sem dúvida, a máquina mais importante dessa pequena coleação é a velha Olivetti-Underwood Studio 44 verde, modelo exato da máquina de meu pai, Alipio. Ela é, na verdade, um sonho de criança, desde os tempos em que eu via meu pai escrevendo; passava pela porta fechada do pequeno escritório onde ele, entre volutas de fumaça de cachimbo, escrevia suas reportagens e editoriais para revistas como Médico Moderno e Contrução Hoje. Entrar lá dentro era proibido; eu só podia fazê-lo por motivo de força maior, o que queria dizer uma ordem de minha mãe ("chame seu pai para o jantar").

Antes, eu parava na porta, para ouvir o claqueteclaque tão familiar, que para mim é como uma música de infância. Entrar no escritório de meu pai quando ele escrevia era como penetrar em território sagrado, como um cemitério indígena ou o solo da Terra Santa. Pelo menos, assim eu pensava, já que ele abominava ser perturbado, por razões intrínsecas ao ofício de escrever, que eu mesmo só entenderia muito mais tarde. O mistério daquele trabalho e esse pequeno tabu fizeram com que esse momento para mim sempre tenha sido cercado de respeito; e me deixou a convicção de que quem escreve tem direito ao silêncio e à solidão.

Meu pai passou anos a trabalhar com aquela Studio, uma das melhores máquinas já feitas para escrever; para deslizar de volta à margem esquerda, o carro macio demandava apenas a ponta do dedo. Quando meu pai não estava, eu roubava algumas folhas de papel para experimentar; escrevia com quatro dedos, como faço até hoje, com a desculpa de que o que fazemos é escrever, e o importante são as ideias, não a datilografia.

Durante anos a fio, sonhei em estar ali, naquele lugar: diante da máquina verde onde os sonhos ainda estavam por ser feitos. Aos dezoito anos, quando tive meu primeiro carro, viajava até Suzano, em geral aos sábados, para visitar meu avô José: adorava ouvi-lo cantar suas antigas modas de viola e, especialmente, contar as histórias com que preenchia o tempo entre uma canção e outra. Ele já tinha passado dos 90 anos, estava encurvado, reclamava de varizes, e da surdez; para me comunicar com ele, eu escrevia frases num velho caderno escolar, sobre a mesa da cozinha, onde fazíamos nossas tertúlias: na verdade um interminável monólogo que comecei a gravar com a ideia de transformar aquelas histórias no meu primeiro romance.



Fiz isso por cerca de seis meses; tirava as fitas K-7 direto na máquina verde de meu paí. Eu ainda não escrevia nada, apenas transcrevia, com o máximo possível de fidelidade, as frases enfeitadas do português italianado e brejeiro de meu avô. As folhas, algumas de seda, outras de sulfite, foram se acumulando até formar um respeitável calhamaço ao qual eu pretendia dar algum sentido. E quem sabe ver publicado como meu primeiro livro.


As folhas foram sendo rabiscadas e passadas a limpo na Olivetti, mas aquilo não formava ainda um romance; era um proto-livro, o rascunho do que viria a ser o que eu primeiro pensaria intitular como Iusfen e, mais tarde, foi Filhos da Terra. Levei tempo para entender que a degravação das histórias de meu avô não dariam um romance e que eu precisaria absorver aquela matéria prima e recriá-la, para surgir um livro de verdade.

Meu avô tinha razão: quando eu lhe dizia que tinha vontade de usar suas histórias para escrever um livro, ele apenas ria e falava: "isso está em você". Filhos da Terra, de fato, não é um livro de meu avô, ou sobre meu avô, mas de como eu o via e, ao final, acabaria sendo um livro sobre mim mesmo.

Filhos da Terra levou sete anos para ser concluído; quando penso no enorme esforço que me custou, parece que uma parte da minha vida foi engolida no tempo. Trabalhei nesse romance como se fosse a única e última coisa que faria na vida; foi meu primeiro romance para adultos e, acredito, ainda o melhor.

Quando saí da casa de meu pai, deixei de escrever na mesma máquina que ele; o romance foi concluído num laptop Toshiba 1000, um precursor dos notebooks modernos; mas as folhas onde o livro nasceram continuaram numa pasta que me servia de referência, onde estava a linguagem que eu queria conservar, o frescor de sua origem. Mais tarde, comprei a máquina que agora está na Casa da mata. Era já uma peça de museu, reformada numa oficina de máquinas de escrever, no centro de São Paulo, próxima do Pátio do Colégio. De alguma forma, necessitava daquela companhia, que me lembra, até hoje, como comecei e por que, mais do que gostar, preciso escrever.

Quando as coisas se juntam



Sou um colecionador de memórias profissional - e, da mesma forma como acumulo a memória factual e afetiva para escrever, vou juntando móveis, papéis, obras de arte e pequenas tralhas das quais tenho dificuldade de me separar. Penso que os objetos que carregamos junto conosco contam um pouco a história da gente e falam muito sobre quem somos - ou o que fizemos de nós mesmos. No meu caso, aparecem aqui e ali nos meus livros e são parte do que escrevo.

Na minha casa em São Paulo, que deixei há quatro anos, esse espaço estava circunscrito ao escritório, onde eu trabalhava diariamente, cercado de coisas cuja maioria só eu sei para que servem ou de onde vieram - pinturas, desenhos, lembranças de viagem, objetos curiosos. Para quem olha de fora, aquilo é apenas uma bagunça, ou o sinal visível do caos interior. Para quem examina tudo mais de perto, ou vê o conjunto, e conhece as histórias de cada objeto e sua importância, surge um novo sentido, que é inerente à própria vida e ao trabalho criativos.

Comecei a revisitar as minhas coisas, e a mim mesmo, recentemente. Para tentar entender melhor o porque de tudo, ou de cada coisa, como numa visita ao museu de mim mesmo.



Por certo tempo, minhas coisas andaram espalhadas, por conta da bússola errática que às vezes toma controle da vida. Assim como seu dono, parecia que elas andavam à procura de um lugar - um lugar onde afinal tudo se encaixasse, esperando que fosse para sempre. Algo difícil, como haver harmonia na tempestade, unidade na diversidade, sentido na loucura. Aos poucos, porém, vida e arte foram se juntando no mesmo lugar.

Até por estar sem endereço fixo em São Paulo, levei tudo para uma nova casa no meio da mata, onde passei a escrever meus livros. No antigo sítio, jamais consegui trabalhar. Havia sempre algo a fazer, a cerca para cuidar, o cão como companhia do passeio, a tarde para namorar. Porém, aos poucos foi tomando força a ideia de reunir tudo lá - o trabalho e o ambiente que o cerca.

Na Casa da Mata, além do meu último níquel, gasto sem nenhuma cerimônia em um cheque rabiscado no balcão de fórmica do cartório, comecei a fazer meu novo futuro levando meus cacos do passado, como o rearranjo de um antigo mosaico, em busca de sua forma definitiva. O que só foi possível depois de encontrar com um amor extraordinário e benevolente que, sem ciúme do que já passou, e capaz de me trazer de volta a energia incomparável da esperança, permitiu que passado, presente e futuro se juntassem de uma forma harmoniosa.

Para minha surpresa, ou alívio, velho e novo foram se encaixando em seus lugares, como se tivessem esperado sempre para estar ali. Passeio agora pela casa e tudo ali faz mais sentido: começo, meio, fim. Cada peça conta uma história, e cada história é uma parte do quebra-cabeça: elementos de sonho, de realização, de aventura, de amor.

Vejo uma linha do tempo e vêm recordações que não são passado, porque atuam, ou mesmo determinam minhas mudanças e a razão de estar aqui. Sentimentos antigos continuam presentes: tudo está dentro de mim. E tenho o impulso de registrar um pouco o que há por trás de cada coisa: a vida que pulsa em cada objeto aparentemente inanimado, o que cada coisa fala de mim, ou sobre mim, e para mim. Eu me redescubro, preparado para mais.

Somos a somatória de tudo: viagens, momentos, lembranças, ideias, ideais, encontros. Recolhemos pela vida aquilo que se amolda a nós mesmos: e aqui estamos. Nossa casa é o espaço onde essa mágica se realiza, ainda mais no caso de gente que, como eu, trabalha em casa e cria um mundo ao próprio redor.

Aqui quero trabalhar, juntar crianças, ouvir o som dos pássaros. Há lá fora um bando de javalis baderneiros que se atocaiaram na montanha e escavam o baixio com os seus caninos; lá embaixo, onde havia o lago onde uma vez uma mulher já morreu afogada, está agora o poço de pedra onde a água mina, cristalina; a rede está à espera, depois do almoço, quando eu e Cleci vamos nos deitar.

E a mesa de trabalho está ali, ao lado da lareira vermelha; são dela as primeiras horas do dia, sempre, e alguns minutos, antes de dormir.

O Aldemir que eu pintei

Por certo tempo, depois de um emprego onde eu sem querer acabei ganhando algum dinheiro, fui morar numa casa com piscina e palmeiras imperiais no Morumbi. Tinha uma namorada, que não bastando querer trazer seus trapinhos para casa, resolveu decorá-la com a grandiosidade merecida. Deixei.

Entre os pertences que ela trouxe, estava um belo e grande quadro, um vaso de flores coloridas, assinado por Aldemir Martins, uma herança de família. A obra ganhou destaque na sala, sobre um aparador de vidro e dois grande cachepôs de vime, de onde saíam plantas ornamentais de verdade.

Ficou bonito: a sala tinha uma lareira, um degrau para a sala de jantar, de onde se via um jardim de inverno e, do outro lado, uma parede envidraçada que dava para a psicina, com uma piscina iluminada à noite de azul.

Parecia o idílio perfeito, mas comecei a observar com o tempo que algumas coisas andavam sumindo misteriosamente. E, um belo dia, entrei e,m casa e não vi o Aldemir. Foi então que fiquei sabendo que minha namorada se metera em dívidas e ia vendendo as coisas pouco a pouco.

Além de chateado com a maneira como descobri aquilo, lamentei pela falta do quadro, que para mim já fazia parte do ambiente. Entao comprei uma tela, do mesmo tamanho, e procurei pintar um quadro igual - o mais igual que eu poderia tentar de um Aldemir. Emoldurei, e lá ele ficou. Não tinha grife, mas fazia a sua função. Uma solução caseira, com a qual fiquei feliz.

Bem, não é preciso explicar muito por que o namoro não durou. Quando a namorada enfim se despediu, passei a olhar aquele quadro com certo aborrecimento, uma lembrança incômoda de certas chateações. Levei-o eimeiro para o quarto de hóspedes. Depois, quando vendi a casa, para a minha casa de campo, que na época se encontrava no bairro do Serrano, antes de vir para o lugar onde esta hoje.

Comecei a achar defeito. Achava que as flores tinham as cores muito lisas, n]ao tinha o mesmo refinamento de Aldemir. Eu conhecia o original, sabia a diferença, então me incomodava.

Então resolvi transformar o quadro. Tomei as reproduções de quadros de mulheres de um calendário de Klint, piquei-as em centenas de pedaços, o que teve um certo gosto de vingança. E, no lugar das flores, colei minhas mulheres partidas. Minhas flores, então, se tornaram um mosaico de rostos rasgados, mulheres de antigamente, com o refinamento de Klint, estilhaçadas pelas minhas mãos turbulentas.

O quadro original foi pintado em 2003, mas não tinha data. Coloquei a verdadeira data do seu nascimento, 2009.

Depois que coloquei todos aqueles retalhos no lugar, passei um selante sobre tudo. Virei o quadro de ponta-cabeça para secar, e pensei: aí está um verdadeiro quadro meu.









segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O quadro da sala e a história de um romance


Em 1997, eu morava num apartamento de cobertura no Morumbi, em São Paulo, com uma bela vista para as casas do Jardim Guedala e, mais ao longe, a cordilheira de cimento da metrópole. Tinha um bom emprego, uma bela e jovem mulher, com quem tinha passado seis anos de um casamento convencional. E estava profundamente infeliz.

Não conseguia terminar o primeiro romance que escrevia, e que viria a se chamar Filhos da terra; não entendia o que havia de errado com o livro, ou comigo, e resolvi mudar tudo: emprego, casa, estado civil. Tudo.

Durante a primeira semana, minha ex-mulher foi buscar consolo com a família no Rio Grande do Sul;fiquei esse tempo sozinho na casa que ia abandonar. Como uma terapia, comprei telas e tinta. Gostava de desenhar, mas nunca havia pintado nada. O primeiro quadro foi um monstro azul que se parecia, muito, com O Grito, de Munch. O segundo foi a paisagem que eu avistava do andar superior, ao lado da piscina.

De tudo o que tinha em casa, além de uma mala de roupas, a única coisa que levei embora foi este quadro, que hoje está na Casa do Escritor, em Gonçalves. Lembrança não da casa, nem da paisagem, mas da força misteriosa e imperiosa que me fez jogar fora aquele cenário e a vida inteira para começar outra.

Cruzei com minha ex-mulher na garagem; ela chegava, eu ia embora.

- Onde você vai? - ela perguntou.

- Não sei ainda. Saí também do emprego, também não sei como ganharei a vida.

Ela olhou então o quadro que eu levava debaixo do braço. E disse:

- Você nunca vai passar fome.

Foi a última vez que a encontrei, antes da asisnatura do divórcio; depois disso, nunca mais. Comprei uma casa nas montanhas, onde estou ainda hoje. Terminei o livro. Encontrei, nas montanhas, a mulher da minha vida. E, desde então, já escrevi uma série de romances e livros de não ficção. Levo a vida que imaginei. E que começou a ser construída ali.

Escrever não é escrever, em si: como disse Gabriel García Marques, é viver para escrever. É, sinteticamente, viver. Era isto o que me faltava: levar a vida como eu a desejava. Ser feliz fazendo o que gosto, estando onde gosto, sem desistir dos sonhos. Todas as vezes em que contrariei a mim mesmo, essa vontade foi mais forte e me levou de volta ao trilho.

As montanhas fazem a gente sentir o prazer viciante da liberdade. Hoje olho o quadro na parede e penso que o cenário era bonito, mas não é como as montanhas: a cidade nos dá uma falsa liberdade. Somos prisioneiros de um sistema. A vida não está dentro de um escritório, ou numa academia de ginástica. Ela está lá fora, onde se sente o cheiro da terra, do orvalho, o calor do sol, o gosto do sal marinho.

Esse é o quadro. Viver, para escrever, e escrever para viver. Ou pintar.