quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Obra cheias de generosidade

- Adorei o nosso livro. Eu queria te dar um presente.

- Mas você já me pagou - respondi. - Está tudo certo.

- Eu sei. Mesmo assim. Quero lhe dar um presente. Pode escolher o que quiser.

Em 2010, fiz um livro de memórias para o ex-banqueiro, caçador e bon vivant Armando Conde, um dos herdeiros do antigo BCN. De vez em quando faço livros de encomenda, mas sempre escolho aqueles que me parecem livros também comerciais, com capacidade de venda em banca, e também gente com quem tenho afinidade. Passamos às vezes cinco ou seis meses dividindo emoções, histórias e a intimidade de alguém. Por isso, é bom escolher bem o projeto. Um livro só sai bom quando a gente se diverte fazendo.

Nesse caso, a escolha, tanto dele quanto minha, rendeu mais que um livro excelente: virou real amizade. Doutor Armando é o tipo de homem que acho admirável. Trata o dinheiro como meio, não como fim; para ele, casado com a fotógrafo Linda Conde, a sabedoria, a educação e a arte são mais importantes. Resultado, é um dos poucos aristocratas brasileiros que usaram a fortuna para viver, e não viveram em função da fortuna. É também um homem carismático, que preza os amigos, a conversa. É elegante e, sobretudo, generoso. Com os amigos, e qualquer um.

Armando me procurou depois de ler a biografia de Rolim Amaro, fundador da TAM, que escrevi e lancei em 2003. Ele é personagem do livro, e eu o tinha entrevistado na época. Foi ele quem, contra o parecer do BCN, autorizou o empréstimo com o qual Rolim comprou seu primeiro avião. Ficara muito impressionado com Rolim, ao conhecê-lo, quando trabalhava como piloto de Pedro Ometto, nas fazendas que abriam na época a floresta amazônica.

Era uma temeridade emprestar dinheiro a um homem que voava na selva, com grande risco se perder ao mesmo tempo o devedor e o objeto da garantia do empréstimo (o avião). Mas Armando achou que aquele homem, que conhecera de pistola em punho, mostrando a foto de outro piloto, com o corpo devorado pelas formigas na mata após se perder num voo trágico, merecia uma oportunidade. E lhe concedeu o empréstimo. Que Rolim, no final, pagou - com juros, correção monetária e eterna gratidão. Aquela chance era tudo o que ele precisava.

Italiano no sangue, Armando admira a grandeza das pessoas e dos gestos. E sempre agiu dessa forma. Durante o período em que fazíamos seu livro, publicado pela editora Record com o título A Riqueza da Vida, colaborou com um de seus antigos amigos e parceiros de aventura: Lan, o grande cartunista, célebre pela generosidade opulenta das mulatas que retratou ao longo da vida de muitos carnavais, e que com a idade se encontrou quase cego e um desamparado. Por meio de Armando conheci Lan e nos tornamos também amigos. Um italiano elegante, mais brasileiro que muitos brasileiros, casado obviamente com uma mulata, adorável pessoa, Lan vivia já quase recluso na sua casa da serra fluminense.

Para Lan, Armando criou um negócio que lhe servisse de aposentadoria. Contratou um escultor para fazer réplicas em bronze de seus desenhos. As réplicas foram vendidas em galerias e o dinheiro passou a ir para Lan. Com isso, Armando fez Lan ganhar dinheiro mesmo sem poder trabalhar.

Eu via o entusiasmo com que Armando  levava o projeto adiante. Me mostrou os primeiros protótipos das esculturas com obras de Lan. Mobilizou os amigos em comum em torno dessa ideia. Então, quando ele insistiu em me dar um presente - qualquer presente -, mesmo sem me dever nada, afinal eu disse a única coisa que queria e achava que ainda podia lhe pedir. Uma das esculturas de Lan.

Mais tarde, fiquei também com alguns desenhos de Lan para a revista Playboy, que dirigi por algum tempo. A escultura gica ao lado da escrivaninha de trabalho, uma mulata que bronze que me recebe alegremente.

Como a maioria das coisas que eu tenho, a escultura de Lan veio, portanto, de um livro. Mais que isso, porém, veio da amizade, da generosidade e do exemplo de um homem que, por gostar, admirar e incentivar a grandeza dos outros, é um admirável exemplo de grandeza, ele próprio. Quem dera houvesse muitos outros como ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário