segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O cetro e o rei Masai

Na savana africana, era raro deixarmos a van: naquela terra infestada de leopardos, hienas e leões, andar, simplesmente, não era seguro. Daquela vez, porém, tivemos de descer: eu e o grupo de jornalistas em visita à reserva de Masai Mara, no Quênia. Iríamos fazer algo igualmente proibido: entrar em uma aldeia masai. "Vocês podem ir", disse o guia, Peter Nguru. "Mas os motoristas precisam ficar de fora. É proibido entrar nas aldeias; se eles estiverem com vocês, podem ser presos."

Era 1996; eu trabalhava na revista VIP, da Editora Abril, e estava na comitiva com o fotógrafo Sérgio Berezovski, então editor de fotografia do grupo Exame. Entramos na aldeia, para um encontro intermediado por Nguru. Na porta, nos esperava o chefe: um negro de dois metros de altura, esguio, longilíneo, magro como se apoisasse o estreito tronco em dois longos varapaus; suas pernas eram tão finas que os joelhos se sobressaíam, protuberâncias redondas num boneco articulado.




"Welcome", disse ele, num inglês quase incompreensível. Entramos. No centro da aldeia, mulheres e crianças corriam para colocar sobre esteiras o que eles achavam que podiam vender: facas, cestos e outros utensílios. Eu não queria comprar nada, mas andava maravilhado com aquela gente, especialmente os guerreiros, que vira avançar em passos largos pela savana, na chuva, lança em riste, como nos livros de Tarzan que eu devorava na infância.

Circulavam de aldeia em aldeia andando com seus passos largos, ou correndo galhardamente: circular por aquelas terras onde eu, supostamente civilizado, estava impedido de pisar, por razões de segurança extensivas a todos os turistas e estrangeiros, era para eles como para era mim atravessar em São Paulo a avenida São João.

Queria conhecer aquela gente de perto, de dentro. Dizia Nguru que muitos abandonavam as aldeias, por causa da malária, ou outro motivo qualquer: viviam nas periferias das cidades, mergulhavam no alcoolismo, eram párias fora do seu habitat. Por isso o governo queniano ordenava o isolamento, proibia o contato com o branco: o que fazíamos ali era ilegal, impensável, mas isso não parecia impedimento para o jornalismo, habitualmente transgressor.

A aldeia, uma paliçada cicurlar, os protegia literalmente dos leões. As casas, choupanas redondas, com uma armação esquelética de madeira, eram cobertas com estrume de gado. Entrei numa das casas. Tinha não mais que oito metros de diâmetro. Dividida ao meio, a primeira metade era para o gado: os masai viviam do seu sangue, que extraíam do pescoço dos animais, com uma grossa seringa que derramava o conteúdo em cuias de madeira. As vacas eram a sobrevivência e, por isso, eram guardadas dentro de casa, como o bem mais importante da família.

A outra metade da casa de estrume era dividida também ao meio, literalmente em dois quartos. O primeiro, por respeito, estava reservado aos mais velhos, em geral os avós. No quarto restante, habitavam, amontoados, todos os demais membros da família: pai, mãe e filhos. Isso me explicou uma velha senhora, que me recebeu e me convidou a acocorar-se com ela sobre o chão de terra batida.

Quando saí para a luz, lá estava ele, o chefe. Veio na minha direção e me mostrou seu cetro. O símbolo do poder tribal, que ele carregava com leveza, era um tacape de madeira, misto de maça e machado, com um nó pesado na ponta, do qual saía, como uma crista, uma lâmina de madeira lavrada, recortada como serra na ponta. Seu design indicava a função: aplicar um golpe ao mesmo tempo pesado e cortante, certamente fatal.


Indagou quanto eu pagaria para ter, literalmente, seu bem mais importante. Por um instante tive dó, por um chefe se desfazer de algo assim; seria o máximo da miséria, talvez desespero, abrir mão do que ele podia ter de mais valioso. Para mim, um rei entregaria com seu cetro a própria dignidade. Diante da minha hesitação, ele me fez compreender, porém, que não apenas queria o dinheiro. Era uma deferência: ele me oferecia uma honraria, um privilégio.

Assim, por um punhado de dólares, eu me tornei proprietário do cetro que fez de mim um rei masai.

Ao longo da vida, colecionei vários tacapes indígenas, que trouxe do Xingu ou das aldeias da Bahia, perto de Porto Seguro: armas iguais às que os índios usavam para matar seus prisioneiros, amarrados pela cintura com a embira que chamavam de muçurana, na simulação de luta em que ambos, captores e capturados, demonstravam sua bravura. Com aquela armas, os índios iam à guerra; eram a extensão de seu poder, de sua força, de sua alma.

Olhando para esses tacapes, pendurados em toda parte pela Casa da Mata, escrevi A Conquista do Brasil, sobre a guerra com que os colonizadores portugueses sobrepujaram os tupinambás e se assenhorearam da costa brasileira. Porém, na sociedade indígena brasileira, aquela arma não tinha a importãncia daquela que me deu a negra majestade africana, peça mais importante, assim, da minha estranha coleção.

O chefe masai, naquele dia, foi preso; a polícia florestal soube da nossa visita e surgiu, como que do nada, na aldeia. Vi o rei masai ser levado para dentro da caminhonete policial, onde subiu passando uma perna por cima da caçamba, como se não fosse nada. Perguntei a Nguru o que aconteceria com ele. "Vai levar uma bronca, mais nada", disse o guia. No Quênia, como no Brasil, os nativos eram inimputáveis, isto é, não respondiam às leis, senão as suas próprias.

Ele, Nguru, teve que se explicar aos policiais. Disse que nos tinha avisado da proibição, mas nós insistíramos, contra a vontade dele, o que era verdade. A polícia não quis criar problemas com a imprensa internacional. A providência de deixar os motoristas longe da aldeia, à nossa espera, serviu para livrar toda a nossa equipe de apoio da cadeia.

Hoje, em casa, descansando na parede, essas armas primitivas, para mim, são mais que memórias de viagem. Elas me lembram a força do chefe, do poder, do guerreiro: essência, e não paradoxo, da civilização.

Foi com a guerra que o homem civilizado prevaleceu: ela está no nosso espírito, na nossa índole desbravadora. É violência, mas também ignição da identidade humana, razão da nossa resiliente permanência no universo, o que nos dá poder. O homem é um pensador, mas um animal belicoso: contra essa natureza, nenhuma ideia de civilidade é capaz de acabar.

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